Terça-feira, 3 de Julho de 2012
Recuperação de crédito: setor só reavê 16% do total

As empresas de recuperação de crédito só conseguiram reaver pouco mais de 620 milhões de euros em 2011. O valor representa uma subida de 15% face a 2010, mas é apenas 16% do total que os clientes, sobretudo do setor financeiro, lhes pediram para recuperar. A maioria das dívidas é devolvida às financeiras por cobrar.

Segundo a Associação Portuguesa das Empresa da Recuperação Extrajudicial de Crédito (APERC), foram entregues às suas associadas mais de 3,85 mil milhões de euros em dívidas para recuperarem, mais 30% que em 2010. De ano para ano, o valor tem aumentado cerca de 900 milhões.

Só que a recuperação «não acompanha esse crescimento exponencial dos montantes sob gestão», explicou o diretor executivo da associação, António Gaspar, à Agência Financeira. «Com a crise, o aumento do desemprego e das despesas e os cortes nos rendimentos, as pessoas não conseguem pagar as prestações dos créditos. Como não têm dinheiro, há cada vez mais dívidas e malparado, mas também é cada vez mais difícil a sua recuperação».

Bancos assumem perdas

Dos quase 3 milhões de processos que chegaram às mãos destas empresas, quase 1,9 milhões foram resolvidos com sucesso. Mas o número de processos não é proporcional à dívida. E ainda que os processos devolvidos aos bancos sem solução não sejam a maioria, representam o grosso da dívida.

«Uma vez devolvidos aos bancos, podem acontecer duas coisas: ou o banco acha que vale a pena ir para tribunal e executa, ou usa as provisões para cobrir essa perda e retira o malparado do balanço no fecho de trimestre», explica António Gaspar.

Ou seja, na maioria dos casos, os bancos nunca mais recuperam o dinheiro. Segundo o responsável, à exceção do crédito à habitação, em que o próprio imóvel serve de garantia e pode ser penhorado, é muito difícil aos bancos recuperarem os montantes em dívida. «Especialmente no crédito ao consumo e para outros fins. Porque não há nenhuma garantia, nenhum bem. Muitas vezes nem há salário para penhorar, como no caso dos trabalhadores por conta própria, nem há outros bens. Sai mais barato aos bancos assumir a perda do que arrastar o processo e pagar as despesas».

Os writte offs (assim se chama ao processo de limpeza do malparado dos balanços, cobrindo-o com provisões) são mais frequentes sobretudo no final de cada ano e em 2011 castigaram bastante as contas dos bancos nacionais.

Fundos estrangeiros compram carteiras de créditos vencidos

Um dos destinos cada vez mais frequentes destas carteiras de crédito vencido é a venda, a empresas de recuperação de crédito ou a fundos. E «o interesse dos fundos, sobretudo estrangeiros, nestas carteiras, é cada vez maior».

«Veem-se muitos fundos suecos, ingleses, até alemães interessados e a comprar carteiras de crédito vencido em Portugal e sobretudo em Espanha, onde o mercado tem uma dimensão maior. E não são carteiras pequenas, estamos a falar de valores de 500 e até mil milhões de euros», assegura.

Estes fundos fazem uma primeira avaliação da carteira, analisando uma amostra aleatória, e oferecem um preço que raramente vai acima dos 8 a 10% do valor facial. Ou seja, se a carteira em causa tiver 500 milhões de euros por recuperar, os fundos não pagam mais que 8 a 10% desse valor, porque sabem que a maior parte do montante não será passível de recuperação.

Nem só da banca vivem estas empresas

Mas nem só do setor financeiro vive a recuperação de crédito. Embora represente o grosso do negócio, algumas das associadas da APERC começam a voltar-se para outros setores, onde a recuperação do crédito «é menos exigente e as retribuições são mais generosas, com menos encargos».

Empresas da restauração, grande distribuição, telecomunicações, hotelaria, health clubs e spas, gestão de condomínios e até hospitais. «Algumas já estão a recuperar taxas moderadoras em dívida há algum tempo, apesar de só agora o tema chegar aos jornais», explica.

fonte:http://www.agenciafinanceira.iol.pt



publicado por adm às 20:33
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