Domingo, 31 de Julho de 2011
Famílias e Estado mais penalizados na restrição do crédito

A imposição da ‘troika’ obrigará a banca a aumentar a remuneração dos depósitos e a cortar no crédito.

A banca terá de reinventar-se nos próximos anos de uma forma que nunca o fez antes. O objectivo é só um: reduzir a alavancagem dos seus balanços. Um dos principais aspectos prende-se com a obrigatoriedade de os bancos reduzirem o rácio de transformação de depósitos em empréstimos dos actuais 150% para 120% em 2014. Será uma mudança brusca que terá como principal agente económico penalizador as famílias, que terão de continuar a contar com um crédito mais restrito e mais caro nos próximos anos. Esta é, aliás, uma realidade que se tem verificado com maior enfoco desde finais de 2006, com a taxa de crescimento anual dos empréstimos a particulares a passar de 10% por mês para uma taxa actual de apenas 0,4%. No sector empresarial, o impacto do corte de crédito deverá ser menos pronunciado.

1 - Crédito
Apesar de o Banco de Portugal parecer ter como foco principal o reforço do capital do bancos- daí ter colocado a fasquia mais elevada em termos de ‘core tier 1' nos últimos testes de ‘stress'- a verdade é que, neste momento, o capital não traz liquidez. E essa sim é a prioridade dos bancos que vivem, e continuarão a viver, mais preocupados com o seu ‘funding' do que em financiar a actividade económica. Isto significa que o crédito às famílias ficará mais caro e mais restrito. No sector empresarial a restrição do crédito deverá ser menos brusca, dado que as linhas de financiamento já existentes deverão manter-se mas sujeitas a preços mais elevados.

2 - Liquidez
A captação de liquidez da sua actividade bancária tem sido garantida maioritariamente junto do Banco Central Europeu (BCE): em Junho, a cedência de liquidez da banca nacional estava nos 43,9 mil milhões de euros. Porém, estes montantes têm de ser reduzidos para os 19 mil milhões de euros, cerca de cinco vezes o valor das reservas mínimas de caixa, até ao final do empréstimo da ‘troika'. Toda esta dinâmica evidencia que o dinheiro que será injectado na economia deverá ser garantido por via do crescimento da captação de depósitos e pela amortização de empréstimos e de títulos de dívida por parte das empresas e particulares. Será por isso um bom prenúncio para os investidores mais conservadores, que terão os depósitos como uma alternativa bem rentável para as suas poupanças

3 - Depósitos
Desde o início de 2010 que os depósitos de particulares tem vindo a desenhar uma tendência de subida: em Maio, por exemplo, a taxa de crescimento anual de depósitos atingiu os 4,4%, o valor mais elevado dos últimos 20 meses. E esta será uma tendência para perdurar dada por via de dois catalisadores: por um lado, os bancos tornarão a remuneração dos depósitos mais apelativas de forma a captarem mais recursos e, por outro, fomentarão junto dos seus clientes a transferência de recursos de outros produtos financeiros como fundos de investimento, seguros de capitalização, subscrições de PPR, para depósitos. Qualquer uma destas realidades já é bastante evidente: do lado da oferta, é clara a existência de uma "guerra de depósitos" na banca nacional (ver páginas 26-27). Por outro lado, as subscrições de fundos de investimento nacionais estão em queda há longos meses, com os montantes sob gestão a contabilizarem uma queda de 2,1% desde o início do ano e de 3,9% desde Junho de 2010, segundo dados da APFIPP.

4 - Comissões
De uma forma simplista pode assumir-se que o negócio da banca foca-se sob três pilares: concessão de crédito, operações de ‘trading' e cobrança de comissões bancárias. Se no caso do crédito as perspectivas apontam para uma queda acentuada, como foi descrito anteriormente, no caso de ‘trading' de acções e obrigações, estas operações têm-se mantido pouco movimentadas dada a situação actual dos mercados. Resta a componente das comissões bancárias que com a montagem de operações de negócios (fusões e aquisições) praticamente estagnada, limita-se à cobrança de comissões junto dos particulares. É verdade que a margem de comissões junto das famílias e empresas está algo espremida dada a grande concorrência do sector. Contudo há ainda margem para gerar um crescimento de receitas por via do aumento do comissionamento. E este poderá também ser um dos caminhos seguidos pela banca nos próximos anos para aumentar os rácios de liquidez.

fonte:http://economico.sapo.pt/



publicado por adm às 20:42
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