Segunda-feira, 26 de Dezembro de 2011
Década de crédito fácil cai aos pés da crise internacional

Investidores perceberam, quase 10 anos depois, que emprestar a Portugal não é o mesmo que emprestar à Alemanha. Agora, as facilidades do euro estão a desaparecer: os juros sobem, os empréstimos escasseiam e o crédito às famílias e empresas cai. E a situação não deve melhorar nos próximos anos

 

Acabou a era do crédito fácil. A crise, que começou por ser financeira, contagiou a economia e acabou na dívida pública, está a pôr um fim às facilidades que marcaram a última década. E a inaugurar um período em que os empréstimos serão mais caros e mais difíceis de obter para o Estado, famílias e empresas. 

Para os mais velhos, um mundo com menos crédito será apenas voltar ao modelo que vigorou até ao final da década de 90. Na altura, só havia duas opções para expandir os empréstimos: captar as poupanças dos aforradores nacionais ou recorrer aos mercados externos e pagar o "risco escudo" – juros elevados para compensar a possibilidade de a moeda nacional desvalorizar. 

A entrada no euro, erigido sob o brasão do Bundesbank alemão, permitiu a Portugal abrigar-se na credibilidade germânica e ter facilidades nunca antes vistas no acesso ao crédito. O resultado foi a degradação das contas externas do país, em grande medida devido ao acumular de dívida privada (ver gráficos).

Juros voltam a descolar

Agora, as facilidades acabaram. "Os credores não vão voltar a emprestar a Portugal como se estivessem a dar crédito à Alemanha", diz Pedro Bação, da Universidade de Coimbra. As taxas de juro, aliás, estão a "cavar" um diferencial cada vez maior, pondo um fim à convergência da última década (ver gráficos). 

Para o Estado português, o nível de juros atingiu um valor tão alto que só um pedido de ajuda externa feito em Abril assegurou que os salários e pensões de Junho poderiam ser pagos. Desde então, a situação só piorou e as obrigações públicas são agora transaccionadas no mercado secundário a um preço que indicia uma probabilidade elevada de uma parte do capital não ser pago. 

A banca, recheada de dívida pública no seu balanço, também foi afastada dos mercados internacionais e tem sobrevivido com uma política agressiva de captação de depósitos, apoiada pela máquina de fazer dinheiro doBCE. "Sem o BCE, a banca não teria sobrevivido", diz Bação. Neste momento, o dinheiro de Frankfurt já representa quase um décimo do passivo da banca nacional – em 2008, era menos de 1%.

Os problemas estão agora a atingir também as famílias e empresas. Com a banca pressionada pela escassez de financiamento e pela exigências de "almofadas de capital", o crédito ao sector produtivo está a cair e as taxas de juro não param de subir – isto apesar de o BCE manter a sua taxa em mínimos históricos. 

"Neste momento, a dificuldade em obter crédito é um dos principais problemas das exportadoras", avança o economista Manuel Caldeira Cabral. "Para muitas, os canais de financiamento estão fechados. A falta de liquidez é, em muitos casos, mais importante que o problema dos custos laborais", diz o professor da Universidade do Minho. 

A própria "troika" admite o receio de uma "desalavancagem" abrupta, feita às custas do crédito a empresas lucrativas e com bons planos de negócios. Mas diz que, por enquanto, ainda não há evidência de "credit crunch".

Crédito, "presente envenenado"?

Não se sabe quando a tempestade vai passar, mas uma coisa é certa: nos próximos anos o crédito não continuará a fluir como antes. Nas suas previsões de longo prazo, a própria OCDE aponta para taxas de juro portugueses bem superiores às da referência germânica. 

Um cenário difícil? Sim, mas. Isto porque o crédito fácil da última não impediu que Portugal registasse o menor crescimento económico desde a II Guerra Mundial: uma míngua de 0,7% ao ano. No caso do Rendimento Nacional (o PIB deduzido de juros pagos ao exterior), o crescimento foi ainda mais baixo. Números que fizeram com que o economista Ferreira do Amaral dissesse, em declarações ao Negócios, que o crédito fácil do euro tinha sido "um presente envenenado". 

fonte:http://www.jornaldenegocios.pt/in



publicado por adm às 23:34
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