Quinta-feira, 8 de Julho de 2010
O tempo do crédito fácil e suas consequências

A dívida é uma droga tão potente como o álcool e a nicotina. Em tempos de prosperidade os consumidores ocidentais usaram-na para melhorar os seus estilos de vida, as empresas pediram emprestado para expandir os seus negócios e os investidores recorreram à dívida para melhorar os seus rendimentos. Enquanto o crescimento durou, a famosa injunção do sr. Micawber (personagem do romance "David Copperfield" de Charles Dickens) parecia estar errada: quando a despesa anual era superior à receita, o resultado era a felicidade, não a desgraça.

 

Há muito tempo que a dívida do muito rico aumenta mais rapidamente do que as receitas. Não foram só os défices públicos que aumentaram. Nos Estados Unidos, só a dívida do sector privado aumentou de cerca de 50% do PIB em 1950 para os quase 300% do seu recente pico. As origens deste crescimento são ainda anteriores, refletindo enormes alterações na atitude social. No século XIX, quem não cumprisse as suas dívidas era preso. A geração que viveu durante a Grande Depressão aprendeu a economizar e a poupar. Mas a adopção mais alargada dos cartões de crédito na década de 60 criou uma sociedade do "compre já, pague depois". O não pagamento tornou-se uma mera opção de estilo de vida e a culpa era provavelmente atribuída ao mutuante descuidado e não ao mutuário imprudente.

 

Conforme os consumidores adquiriam margem de manobra, também as empresas o faziam. O rating médio para obrigações caiu do A em 1981 para o BBB- actual, apenas um furo acima do nível de ferro-velho. As empresas que apresentavam liquidez nos seus balanços eram criticadas pela sua timidez, e as leis da falência, como por exemplo o Capítulo 11 nos Estados Unidos da América, impediam os credores de encerrar empresas. Este regime indulgente encorajou os empresários (em Silicon Valley uma falência é como uma cicatriz de um duelo numa messe de oficiais da Prússia) mas também permitiu que demasiadas empresas mortas-vivas sobrevivessem (basta olhar para as linhas aéreas), não existindo indústria mais dependente da alavancagem do que a indústria financeira. Os bancos geriam balanços com níveis de capitais próprios cada vez mais baixos; as participações privadas e os fundos especulativos (hedge funds), que usam a dívida de forma agressiva, produziram bilionários em série. O caminho para a opulência era simples: comprar um ativo com dinheiro emprestado, depois cruzar os braços e observar o preço a subir.

 

Toda esta situação foi encorajada pelas autoridades. Sempre que uma crise derivada da dívida ameaçava a economia, os bancos centrais cortavam nas taxas de juro. A perspectiva desses salvamentos reduzia o risco de assumir mais dívida. Foram criadas bolhas, primeiro nos capitais próprios, depois na habitação. Era uma engrenagem monetária em que cada ciclo terminava com uma dívida muito superior e taxas de juro muito inferiores. A fase final foi atingida em 2007-2008 quando os investidores tomaram consciência de que grande parte desta dívida não seria reembolsada. Conforme a contração do crédito foi sendo apertada, os bancos tiveram de reduzir as taxas a curto prazo para 1% ou menos.

E agora o juízo final

 

Os países do mundo rico enfrentam agora dois conjuntos de problemas. O mais premente é como pagar as suas dívidas. Muitas das pessoas que reduziram as suas despesas com cartões de crédito e empresas que viram as suas linhas de crédito cortadas ficariam horrorizadas de ver o pouco que a dívida global do mundo rico caiu. Grande parte da dívida apenas se mudou do sector privado para o público, visto os governos terem interferido muito bem para apoiar os bancos e salvar a economia de cair numa depressão. E no futuro ainda mais dinheiro terá de ser angariado, devido às promessas generosas dos governos em termos de pensões e cuidados de saúde para a geração do período do baby-boom (nascidos em 1945-1952) que se irá reformar.

 

Toda esta dívida terá de ser regularmente refinanciada e reconduzida. As crises de confiança são prováveis, dado que a tendência da taxa de crescimento do mundo rico (e portanto a capacidade dos devedores em cumprir os seus empréstimos) parece determinada a abrandar. Pior ainda, muita da dívida privada é garantida contra ativos; enquanto o valor da dívida é fixo, o valor dos ativos pode descer, o que pode causar um círculo vicioso, com os devedores a serem forçados a vender ativos, obrigando os preços a descer.

 

A acumulação de mais dívida não parece ser uma opção. Há pouca vontade por parte dos devedores ou dos credores. Todos os governos enfrentam o equilíbrio difícil de aplacar os mercados sem danificar o crescimento: o novo Governo britânico fez uma tentativa esta semana. Mas viver com menos dívida representará um segundo conjunto de desafios a um prazo mais longo.

O caminho para o purgatório

 

Um mundo rico com menos dívida teria um aspecto muito diferente. Os bancos já enfrentam exigências de rácios de capital mais elevados (e portanto balanços mais seguros). Os consumidores ocidentais, perante taxas mais elevadas e benefícios mais baixos, deixarão de ter liberdade para gastar; de facto irão querer poupar mais, visto estarem perante reformas mais longas. Sarah Jessica Parker e os seus Manolo Blahniks ficarão fora de moda; a avó Walton e o seu confortável avental entrarão na moda. As casas serão mais uma vez um local onde viver e não meios para especulação. Alguns modelos de negócio, particularmente as participações privadas, terão maiores dificuldades em prosperar. A vida será mais difícil para os empresários: mais de metade de todas as empresas novas apoiam-se no financiamento por empréstimos.

 

Para os responsáveis pelas políticas, as prioridades são claras. Em primeiro lugar, devem concentrar-se na geração de crescimento. Para os Estados Unidos da América, com a sua população relativamente jovem e crescente, isso será comparativamente fácil. A Europa continental, em comparação, corre o risco de acabar como o Japão, que há duas décadas luta com grande esforço para crescer em face do peso da sua dívida e da população envelhecida. Os jovens europeus melhores e mais inteligentes podem emigrar para países sem essas cargas; e se a economia estagnar, os que ficam podem eventualmente decidir-se pelo incumprimento das suas dívidas, ou pelo corte dos benefícios aos idosos. Perante estas ameaças, a Europa tem de adoptar as reformas estruturais necessárias para que as suas economias cresçam tão flexível e rapidamente quanto possível.

 

Em segundo lugar, os responsáveis pelas políticas têm de começar a longa tarefa de reequilibrar a economia mundial. Faz sentido que tanto os países ocidentais como os trabalhadores nos 50 anos, poupem para a reforma em vez de acumularem as suas contas dos cartões de crédito. Mas se um grupo de pessoas poupa, o outro tem de pedir emprestado. Atualmente o mundo em desenvolvimento não está disposto a gerir défices de contas correntes; mesmo conseguir que a China poupe menos é uma tarefa formidável. De todos os modos, uma mudança é do interesse de todos a longo prazo - e as partes mais jovens do mundo deverão ser os mutuários.

 

Desmamar os países ricos da sua dependência de dívidas provocará a síndrome da abstinência. A austeridade não atrai os eleitores, que podem descarregar as suas frustrações nos políticos e (pior) nos estrangeiros. A frase do sr. Micawber pode ser virada ao contrário outra vez. Quando o rendimento anual for obrigado a exceder a despesa anual, o resultado poderá muito bem ser a desgraça.

Uma tabela interativa permite comparar como o peso da dívida varia em 14 países e analisar diferentes tipos de endividamento.

fonte:http://aeiou.expresso.pt/



publicado por adm às 23:07
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